Carta Aberta da Diretoria da ADUFABC sobre o Plano de “Ensino Continuado Emergencial”

Caros colegas,

A diretoria da Associação dos Docentes da Universidade Federal do ABC, reunida por videoconferência no dia 17 de março de 2020, discutiu e aprovou a seguinte nota:

Carta Aberta da Diretoria da Associação dos Docentes da UFABC sobre o Plano de “Ensino Continuado Emergencial”

Estamos vivendo, sem dúvida, um momento muito difícil que vai exigir, de todos nós, tranquilidade, empatia, diálogo e flexibilidade. O mundo e o Brasil estão imersos em uma crise muito profunda, de consequências ainda não delineadas, sendo difícil prever como e quando ela será superada.

A Universidade Pública torna-se, nesse contexto, ainda mais crucial. Nosso papel essencial é contribuir com nossos conhecimentos, nas diferentes especialidades, para que esta crise seja adequadamente compreendida e rapidamente superada, com especial atenção para os setores mais frágeis de nossa sociedade. É nessa chave que consideramos imprescindível manter viva e unida a nossa comunidade acadêmica.

No quadro de isolamento a que estamos submetidos, isso implica, sem dúvida, inovar através do uso de tecnologias de informação e comunicação para promover não só o nosso diálogo com a comunidade externa, mas também nosso diálogo interno. Isso inclui o contato entre colegas, entre docentes, técnico-administrativos e gestores mas, também, e mais importante, o contato entre professores e alunos.

Portanto, desde já nos colocamos favoráveis ao uso de ferramentas digitais como forma de dar continuidade à vida universitária. Porém, de modo algum isso implica obrigatória ou necessariamente usar ensino à distância nos cursos de graduação e pós-graduação, como forma de integralizar os créditos para concluir as disciplinas já iniciadas, especialmente quando esta modalidade não seja complementar, mas sim ocupe mais carga horária do que a presencial.

A discussão sobre a continuidade das atividades acadêmicas enquanto durarem as restrições impostas pelo combate à pandemia é absolutamente essencial e, até por isso, deve ser feita com amplo debate da comunidade acadêmica, nas instâncias formais da universidade, com destaque para o Consepe. Nos momentos de crise, como o que vivemos, é ainda mais fundamental preservar a institucionalidade democrática.

Nesse sentido, a diretoria da ADUFABC manifesta toda a sua inconformidade com a consulta que vem sendo feita para que os docentes decidam individualmente se aderem ou não a um denominado plano de Estudo Continuado Emergencial.

Em primeiro lugar, a consulta tem um prazo demasiado exíguo, considerando a complexidade da matéria e o nível de incerteza diante do cenário futuro. Dado que, até o momento, as aulas estão suspensas formalmente até 22 de março, desconhecemos com qual cenário a reitoria sugere que trabalhemos para “reorganizar” nossos cursos na nova modalidade.

Além disso, e mais grave, ao optar por um viés individual, a consulta desconsidera o fato de que este problema, dado o caráter público da universidade, só pode exigir uma solução institucional sistêmica, que leve em conta as diferenças e desigualdades que permeiam o conjunto do corpo docente e discente.

Nesse âmbito, nos preocupam particularmente dois aspectos.

Primeiro, não foi oferecido aos docentes treinamento, equipamentos e plataformas adequadas para essa modalidade de ensino. Cabe frisar que nem todos dominam de modo igual o uso dessas tecnologias digitais e nem todos contam com a mesma infraestrutura para oferecer esses cursos. Além disso, a padronização de plataformas é crucial para garantir a isonomia nas condições de trabalho e acesso.

Em segundo lugar, mas mais importante ainda, resta longe de ser óbvio que os nossos discentes tenham condições minimamente equânimes de seguir adequadamente os cursos nessa nova modalidade; pelo contrário, as desigualdades sociais tendem a jogar um papel incompatível com o nosso projeto pedagógico.

Por fim, a possibilidade de integralizar o quadrimestre utilizando um alto percentual de Ensino à Distância, sem a padronização de plataformas adequadas, sem a garantia de infraestrutura e treinamento e sem a definição de requisitos claros contém problemas e riscos que estão longe de ser triviais.

Um destes problemas, que ganha destaque no momento em que a Universidade Pública está sendo alvo de ataques e cortes, é passar a falsa impressão de que o ensino presencial possa ser dispensável ou ocupar um lugar menor no processo educacional. Destaque-se o pronunciamento do ministro da Educação no dia de hoje, 17 de março, em que o mesmo comunica a publicação de uma portaria que flexibiliza as regras do ensino superior em todo o país, como forma de implementar o ensino à distância no contexto da crise do COVID-19, como suposto exemplo de boa gestão.

Com base em tudo isso, a ADUFABC apela à Reitoria que abra o diálogo amplo com o corpo docente e discente. A reunião que a ADUFABC solicitou formalmente à reitoria e que acontecerá no dia 19 de março será um espaço importante para isso, mas não é suficiente, em especial com o calendário do Plano de Estudos Continuado Emergencial já estabelecido.

É preciso tempo para que os docentes compreendam o que está sendo proposto, debatam e opinem nas suas instâncias formais, que são os colegiados, plenárias de curso, conselhos de centro e superiores, que devem ser considerados na modalidade virtual.

A preocupação com a universidade pública, que nos move a todos, não pode ser sacrificada em nome de uma pretendida urgência que, especialmente em momentos de crise, pode gerar efeitos inesperados e até mesmo contrários ao que todos estamos buscando.

Coerente com isso, a diretoria da ADUFABC está estudando soluções tecnológicas que possam promover espaços de diálogo entre os docentes, para informar a posição da ADUFABC nesse contexto.

São Bernardo, Santo André, São Paulo, 17 de março de 2020.

Diretoria da ADUFABC
Gestão 2018-2020

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